
A alta dos preços agrícolas pode não compensar as perdas de receita de um produtor afetado pelo clima. Com o fortalecimento do El Niño, grupos do agronegócio precisam rever a capacidade de pagamento das operações de crédito considerando o volume que terão para vender, os custos e as datas de recebimento. A avaliação é de Pedro Boldrin, CEO da Sanp, especializada em estruturação de crédito e gestão de endividamento no setor.
Em atualização divulgada neste mês, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) apontou a continuidade da intensificação do El Niño, com pico previsto para dezembro. Para a gestão financeira, o desafio é incorporar os riscos às projeções de caixa sem presumir que todas as culturas e regiões terão o mesmo comportamento.
“Um problema de produção em uma região pode reduzir a oferta e valorizar o produto de outra. Mas o preço maior só ajuda quem tem o que vender. Para avaliar a capacidade de pagamento, precisamos saber quanto o produtor vai comercializar, quanto custou produzir e quando o dinheiro entra”, afirma Pedro.
No hortifruti, as oscilações recentes mostram como é arriscado projetar receitas com base em uma cotação isolada. Segundo o Hortifrúti/Cepea, no portal HF Brasil, o preço médio da batata ágata especial no atacado de Belo Horizonte subiu 58,6% na semana de 5 a 9 de outubro, para R$ 107,64 por saca. Na semana seguinte, de 12 a 16, recuou 29%, para R$ 76,38.
No primeiro período, o levantamento relacionou a valorização às chuvas que dificultaram a colheita e limitaram a oferta. No segundo, apontou colheitas realizadas mesmo em condições desfavoráveis, problemas de qualidade e menor demanda. Os dois períodos mostram que dificuldades na colheita e preços mais altos não caminham necessariamente juntos.
Para Pedro, a repercussão financeira pode alcançar também grupos cuja produção seja preservada, mas que enfrentem mudanças nos preços ou nas condições de venda. Por isso, a exposição ao risco precisa ser analisada conforme as regiões produtoras, as culturas e os canais de comercialização de cada operação.
“O financiamento foi contratado com uma expectativa de receita. Se o volume vendido cai ou o recebimento atrasa, a parcela não muda automaticamente. É preciso revisar o fluxo de caixa para saber se o negócio consegue pagar a dívida e financiar a continuidade da produção”, diz.

O diagnóstico deve reunir compromissos com bancos e fornecedores, garantias já vinculadas e despesas necessárias para manter a atividade. Uma empresa pode ter patrimônio e perspectiva de faturamento, mas não dispor de dinheiro suficiente na data de um vencimento. Identificar esse intervalo ajuda a dimensionar a necessidade de capital de giro e a avaliar alternativas com os credores.
A análise também precisa distinguir uma dificuldade temporária de recebimento de uma perda persistente de margem. No primeiro caso, pode haver um descompasso entre entrada e saída de recursos. No segundo, acrescentar dívida sem rever custos, investimentos e retorno esperado pode prolongar o desequilíbrio.
Na avaliação do executivo, o mesmo cuidado se aplica às decisões de expansão. A aquisição de terras, máquinas ou outra operação deve ser confrontada com cenários de receita menos favoráveis, para verificar quanto do caixa ficará comprometido e se o retorno sustentará o financiamento.
“Antes de buscar mais crédito, o produtor precisa entender o que está financiando. Um atraso de receita é diferente de uma operação que deixou de gerar resultado. Levar essa conta ao banco antes do vencimento permite discutir alternativas com mais informação e mais tempo”, afirma Pedro.
Para as instituições financeiras, esse acompanhamento ajuda a avaliar cada grupo para além da cotação do produto ou do tamanho da dívida. Na visão de Pedro, conhecer a atividade e o destino dos recursos é necessário para discutir novas operações, limites e prazos compatíveis com a capacidade de pagamento.








